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Rede inicia agenda 2026 com debate
Encontro reuniu diferentes setores para debater caminhos de adaptação climática, fortalecimento da cadeia do açaí e justiça socioambiental na Amazônia.
Símbolo da sociobioeconomia amazônica, o açaí está no centro de debates urgentes sobre seu futuro. Pressionada pelas mudanças climáticas, por desafios estruturais e por disputas em torno de modelos de desenvolvimento, a cadeia produtiva do fruto enfrenta um momento decisivo: como conciliar geração de renda, conservação e justiça social? Essa questão mobilizou representantes de diferentes setores em um encontro voltado à construção de caminhos para fortalecer a resiliência da cadeia. Este encontro também marca o início das atividades da Rede Diálogos Pró-Açaí em 2026. A agenda encontra base em um acúmulo que já vem sendo construído pela Rede e foi consolidado no policy brief Sociobioeconomia e Açaí: Recomendações para a Resiliência Climática e Justiça Socioambiental na Amazônia, documento que reúne contribuições sobre caminhos para fortalecer a cadeia do açaí diante dos desafios climáticos, com foco em proteção dos territórios, instrumentos de adaptação e promoção de justiça socioambiental.
Crise climática e impactos sobre a cadeia do açaí
As mudanças climáticas já produzem efeitos concretos sobre a cadeia do açaí. Alterações no regime de chuvas, eventos extremos e impactos sobre a sazonalidade vêm afetando o volume da produção, a previsibilidade das safras e a dinâmica dos territórios onde o fruto é produzido. Para comunidades que dependem do açaí como base econômica e alimentar, esses efeitos se somam a vulnerabilidades históricas e ampliam riscos sociais e produtivos.
Além da dimensão climática, o debate destacou que a cadeia enfrenta pressões estruturais que agravam esse cenário. “Temos pressões externas, como modelos econômicos predatórios, falta de políticas públicas integradas, desafios estruturais, questões relacionadas à produção sustentável, inclusão social e acesso a mercados. A esses fatores, soma-se o impacto das mudanças climáticas, que alteram a sazonalidade e o volume de produção”, afirmou Pollyanna Coêlho, coordenadora de projetos do Instituto Terroá.
Caminhos de adaptação e Governança multissetorial
Se os riscos se intensificam, também crescem as experiências voltadas à adaptação. Experiências no elo produtivo mostram que essas respostas já estão em curso e junto com elas a necessidade de fortalecer mecanismos de governança para enfrentar desafios que nenhum ator resolve isoladamente. O encontro reforçou que a resiliência da cadeia do açaí depende da articulação entre comunidades, poder público, cooperativas, empresas e organizações da sociedade civil.
Representando a Cooperativa de Frutos do Baixo Tocantins (COOFBAT), Joseleno Queiroz destacou iniciativas como cursos, manejo sustentável dos açaizais e certificações voltadas à melhoria da produção e à adaptação climática. Segundo ele, os resultados começam a aparecer com a valorização do produto, mas os desafios persistem: “O açaí é o número um na região tocantínia, mas ainda precisa de melhorias. O envolvimento do governo é muito importante, especialmente no período de entressafra”.
Nesse campo, políticas públicas e iniciativas estruturantes aparecem como elementos estratégicos. Ao apresentar o Plano Estadual de Bioeconomia do Pará (PlanBio), Luz Marina Almeida, da Secretaria de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade (SEMAS), destacou que a agenda está integrada à política climática estadual e inclui ações voltadas ao fortalecimento da cadeia do açaí. “O PlanBio está ancorado na Política de Mudanças Climáticas do governo estadual e, dentro desse escopo, contempla diversos projetos que fortalecem a cadeia do açaí”, afirmou.
O papel das certificações também foi apontado como indutor de boas práticas e articulação entre atores. “As certificações têm trazido questões relevantes sobre açaização e o governo vem a reboque. Onde você vê as certificações, tem ações de empresas que geralmente financiam essas certificações para cooperativas e associações, contribuindo para a implementação de boas práticas, entre elas o combate ao trabalho infantil”, destacou o auditor Helder Gomes.
Sociobioeconomia e mercados para a sustentabilidade
O debate também evidenciou que resiliência climática e sustentabilidade econômica caminham juntas. O fortalecimento da cadeia do açaí passa por mercados capazes de valorizar práticas sustentáveis, ampliar a inclusão produtiva e consolidar relações mais justas entre produção, comercialização e desenvolvimento territorial.
A perspectiva do setor privado reforçou esse ponto ao destacar o papel do mercado na consolidação da sociobioeconomia. “Sem mercado não há bioeconomia nem sociobioeconomia”, afirmou Bruna Oliveira, gerente de sustentabilidade da Nossa Fruit, ao abordar a importância da integração entre produção, certificação e acesso a mercados, inclusive internacionais.
Nesse contexto, instrumentos como rastreabilidade, certificações e assistência técnica contínua aparecem como elementos-chave para estruturar cadeias mais sustentáveis e resilientes, conectando territórios produtores a dinâmicas econômicas mais amplas.
Próximos passos
Como desdobramento dos debates realizados ao longo do encontro, a Rede Diálogos Pró-Açaí deu continuidade à construção de sua agenda estratégica para 2026 com a realização da Oficina de Planejamento Anual, promovida no dia 6 de maio, em formato virtual.
A atividade reuniu membros da Rede em um espaço de alinhamento de prioridades, definição de caminhos de atuação e fortalecimento da governança para o próximo ciclo. A oficina também possibilitou aprofundar temas que emergiram durante os diálogos anteriores, como adaptação climática, fortalecimento da cadeia do açaí, políticas públicas e ação multissetorial, buscando transformá-los em prioridades compartilhadas e encaminhamentos concretos para a atuação coletiva da Rede.